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6 may. 2007

Xavier Zarco - Perto da morte y otros poemas

1 comentario :

perto da morte


perto da morte

sinto-lhe o hálito

num vento súbito de luz

descendo da face

fria de um vitral

observo as mãos

onde entre dedos se esvai

a água onde habita o rosto

que nomeando fiz meu


fecha-se a casa ao rigor do inverno


fecha-se a casa ao rigor do inverno

como uma arca enamorada

pelo olor da broa

nada na boca do forno

e escuto as raízes do vento

e as palavras da chuva

no telhado que guarda

todas as minhas lembranças

e reparo no reflexo

preso às mãos da água

como uma porta

entreaberta para a infância

porque há um grito inscrito

na face da pedra

onde um dia deixei a minha espera



reencontro os caminhos


reencontro os caminhos

as mãos que amassaram o pão

das horas vagas das madrugadas

por florir nestas varandas

despertas para o nascente

sinto a fragrância da farinha

que o burro trazia

monte abaixo

como se nada nesta roseira

cujos espinhos se crivam

no meu olhar

quando este se recusa a ser a voz

do galo das manhãs

e cruzam o horizonte

os galgos da infância

todos no faro do vento

que de manso

sopra sobre os campos

e cintilam peixes

no riacho que canta a melodia

das pedras feridas

pelas suas águas

e riem pássaros

no alto silêncio

das suas moradas

em desafio

incendiado a distância

e soltam-se as raízes da memória

numa algazarra

pelas estradas percorridas

regressam ao ventre

ao início

de todas as coisas em mim

reencontro os caminhos

e o sangue brilha

na primeira das palavras

mãe

como se enfim adormecesse


regresso ao ventre ao centro da memória


regresso ao ventre ao centro da memória

onde as minhas palavras

são aquelas que planto

para colher uma a uma

onde tive um mundo inteiro

aos meus pés

porque era só meu

eu próprio o fazia

em cada instante guardando-o

nos bolsos rotos da infância

à força de ser homem

de ter de ser homem

regresso a camioneta consome a última

curvatura da distância

e embora mais perto esteja

do chão que me irá acolher

sinto a ave o canto da ave que há em mim

porque sei que serei feliz aquí


olho nos olhos do gato


olho nos olhos do gato

a explicação do exílio

a casa sufocada no cerrar

de portas e janelas

a noite fechada nas ruas

que poste público algum

iluminará

no meu olhar

Xavier Zarco

http://xavierzarco.no.sapo.pt